A sereia-sofrimento

29/03/2018

Muitos de nós somos viciados em sofrimento vivendo como que buscando elementos dele em qualquer situação com a qual nos deparamos em nosso dia-a-dia.

Como uma entidade, uma sereia que encanta, o sofrimento nos consola, nos justifica, nos dá carinho, fazendo com que nos sintamos importantes na existência de nossa dor. Iludidos por ele, não nos lembramos de que há pessoas que vivenciam as mesmas situações que nós, mas que agem de modo diferente. Até mesmo a lembrança de que algumas pessoas agem de modo diferente meio a situações similares às nossa, essa lembrança acaba sendo utilizada para nos sentirmos vitimizados, pois o sofrimento - tinhoso - nos diz "você é frágil demais para agir como eles". Revezando-se no papel de pai e mãe, o sofrimento nos dá um alento. Mórbido. Mas, não percebendo, cegos a quem somos, a ele nos entregamos, nos sentindo filhos-vítimas, recebendo seu abraço, seu ninar, adormecendo em andrajos intimamente escuros, solitários.

O sofrimento é uma sereia perigosa. É coisa séria. Mas, não há beleza nele. E nenhum valor de fato, exceto, como é dito em Metafisica, o saber que nele não há valor. Apenas para isso ele serve.

Assim que a sereia-sofrimento nos laça, a mesma energia de consolo utilizada para nos conquistar a seus domínios é retirada e sua aparente doçura se transforma em autonegação, pois essa sereia começa a se alimentar do que sobrou de nós, comendo sem piedade nossa vitalidade, nos deixando doentes, apáticos, desgostosos.

Imagem: Pixabay
Imagem: Pixabay

Muitas vezes descobrimos o engodo após muito tempo e aí nossa luta passa a ser quase inglória, pois temos que reclamar nossa mestria em nossa própria vida, nos arrancando vagarosa e firmemente dos dentes desse monstro implacável que só existe para que saibamos que dele não necessitamos.

O sofrimento nos debilita, nos faz impotentes, promove o medo, a sensação de falta de merecimento, a raiva, a escuridão, doenças de vários nomes. É uma doença psíquica promovida por nós mesmos - a partir da interpretação pessoal que damos ao que nos cerca - e a ele nos entregamos, desavisados, iludidos por seu canto de consolo.  

Conscientizarmo-nos de que o sofrimento é um aspecto de nós mesmos e trabalharmos com confiança e coragem para sairmos de seu reino é essencial para nossa recuperação para nós mesmos. Sim, nos recuperamos para nós mesmos, pois todos somos seres singulares, possuidores de talentos, de capacidades.

Atividades que nos distraiam, como ouvir música que nos promova a sensação de alegria, conversar com amigos positivamente orientados, fazer algo por alguém, cuidarmos da sanidade de nossa mente, sempre nos ajudam a encontrarmo-nos conosco mesmos. E dizer um 'oi' a nós mesmos, nos apoiando diariamente - cada dia um pouco mais - nos ajuda a percebermos que não precisamos caminhar pelos labirintos da existência pessoal tendo como companhia entidade tão egoísta.

Muitas vezes dizemos, "mas, tenho esse problema; me faltam coisas". E temos que ser justos conosco mesmos: entregar-se ao sofrimento nunca arrumou a situação de ninguém. Olhar o problema, encontrar formas de solucioná-lo é uma coisa, entregarmo-nos ao sofrimento por verões-outonos-invernos-e-primaveras é outra história. É necessário amar a nós mesmos para sair desse círculo vicioso. E começamos a fazer isso ao nos separarmos do sofrimento, vendo-o separado, como se fossemos um e, o sofrimento, outro.

Não somos o sofrimento, ele é um aspecto pessoal ao qual nos quedamos. Apenas para mostrarmos a nós mesmos do que somos capazes. E somos capazes de bem mais do que vender nossa liberdade por preço tão pesado.

O que devemos esperar no lugar do sofrimento? Dentes no coarador? Alegria esfuziante? Não. Devemos esperar nosso equilíbrio, nosso ajuizamento, nosso autovalor, pois somos seres riquíssimos, vasos de potenciais, criadores de sonhos, planos e realizações. E o sofrimento não colabora com isso. 

Em nossa vida, em nosso dia-a-dia, na jornada pessoal que nos cabe, dele já temos o suficiente. Não é necessário - nunca - nos entregarmos às suas presas. Dele, apenas o necessário nos basta. 

Saindo do necessário, tudo se torna superlatividade. E o exagero em qualquer área de nossa vida só está ali para ouvir de nós: Não, muito obrigado (a).