Hipnoterapia vs Crenças Espirituais

17/04/2018

A espiritualidade é parte de nossa constituição humana. Ela é desenvolvida através das religiões de nossos ancestrais. Ao longo de nossa vida é comum abrirmos mão das religiões por não encontrarmos suporte intelectivo nelas ou por ansiarmos por mais elementos que a dogmatização religiosa não consegue nos fornecer. Nesses casos geralmente optamos pelo ateísmo - negando a existência de um deus formado pela interpretação humana ainda que centrada em livros considerados sacros - ou continuamos explorando caminhos e questionamentos pessoais. De um modo ou de outro continuamos trabalhando nossa parte espiritual.

Esse artigo serve a quem se identificou com uma religião ou a quem ainda continua explorando seus caminhos. E não serve ao ateísmo simplesmente porque é verdadeiro dizer que não há como provar a existência ou inexistência de uma divindade criadora e mantenedora de um universo que nos cerca e que, por isso, colocar um rótulo de inexistência em tal suposto deus seria agir dentro dos padrões dogmáticos de religiões que não permitem exploração além do caminho que inicialmente indicaram para o trabalho de desenvolvimento da espiritualidade de cada um. E não é possível provar existência ou inexistência de uma divindade tal - também - simplesmente porque os métodos criados para medição de realidades físicas não são explorados e aceitos como métodos para exploração de realidade não física. Sim, uma simples questão de métodos. Ou...de abordagem.  

E enquanto nos debatemos com essas limitações e preconceitos, é possível entender que psiquismo é espiritualidade explorada e que esse psiquismo atende aos ditames de uma mente extremamente criativa que nos surpreende a cada momento em que apostamos no rico manancial e recursos, ideias, situações e estruturas que ela nos fornece.

A própria psicologia, com seus representantes filosóficos mais que psicólogos de fato, carece de elementos para permitir a seus clientes/pacientes a exploração de suas questões criativas para além do reconhecerem-se como doentes. E se carece de elementos é apenas porque é feita por uma grande maioria de seres humanos que, não tendo o hábito do constante questionamento e da empunhadura da ousadia, se limitam a movimentos corriqueiros. Isso porque lidar com o tremendo potencial humano é difícil. Não à toa mais e mais profissionais se inclinam para as possibilidades trazidas pelas chamadas terapias complementares ou práticas apresentadas por ousados pesquisadores norte-americanos que levam as pessoas a terem experiências pessoais que não se dão a explicações rígidas, mas à vivência pessoal e consequentemente à criação de estruturas legitimadas individuais. Daí o mote vivo do 'você cria sua realidade'.

No bojo da vivência hipnoterápica, também uma prática considerada integrativa dentro do quadro de matérias que cuidam da saúde e uso da riqueza mental, emocional e física, trabalha-se com todas as possibilidades de cada individuo como se suas possibilidades fossem de caráter individual (e realmente são) e com seus elementos, de potencial libertário e promotor de impulsionamento original, respeitando desse modo as características de cada um.

Como Hipnoterapeuta, minha formação é a de buscadora, e exatamente por isso penso que consigo aproveitar minhas experiências como alavancadores para o processo de meu cliente. O que isso significa? Significa que se alguém acreditar em reencarnação, um dos muitos instrumentos pelos quais a mente envia justificação para o cérebro trabalhar suas questões de caráter íntimo e individual/pessoal, será essa a via utilizada para solução e continuidade da verve criativa a que cada desafio pessoal nos chama.

Somos uma sociedade em frenético movimento. Cada um está envolvido em criações pessoais delicadas e importantes. Tanto a nível pessoal quanto a nível grupal. E diferentes de culturas animais grupais (como as abelhas, as formigas, os cupins, etc.) transformamos nosso ambiente em nível macro, mas sempre a partir do micro - que é o que cada movimento representa.  

Por sermos essa sociedade singular, especial, em constante aprendizado, a espiritualidade - seja vista ou não como psiquismo - tem um papel importante na estrutura psicológica/psíquica de cada membro dessa sociedade.

Às religiões cabem o papel de ampliar a apreensão simbólica do poder pessoal, trabalhando a importância das percepções abstratas, utilizando os elementos de uma espiritualidade que, momento ou outro, será vista como uma capacidade psíquica que, agregada ao comum dos dias, dará a cada ser humano a possibilidade de ele mesmo legitimar seu processo de importancialização existencial. Da posse dessa legitimidade brota a tranquilidade e a certeza individual para contribuir com uma sociedade mais ordenada e despida dos vários problemas socioculturais que vivenciamos ultimamente.

Na Hipnoterapia, expressões pessoais consideradas como doenças - depressão, síndromes emocionais e comportamentais diversas - se despem de rótulos, livrando-se da fácil inclinação à dogmatização, para lançar um olhar curioso, interessado, compassivo, resgatando - dessa forma - as possibilidades de cada um de nós.

Uma pessoa que se sente inclinada à tristeza por conta do inverno, por exemplo, passa a entender que o inverno é fase pessoal de introspecção para a gestão do que foi assimilado no verão. Uma pessoa que se sente obesa, passa a trabalhar sua compreensão do crescimento pessoal a partir da identificação, respeito e uso de emoções versus alimentação. Uma pessoa que sofre por causa de um luto ou de uma paixão não correspondida, passa a perceber-se e a seu modo de vivenciar seus apegos, sua própria independência e sua capacidade de seguir adiante a despeito de mudar suas crenças por outras que lhe tragam resultados mais sadios.

Enquanto trabalha com elementos como esses e muitos outros, o Hipnoterapeuta e seu cliente percorrem juntos uma jornada, onde seu cliente lhe ensina e ensina a si próprio, sob a orientação de seu Hipnoterapeuta, o vislumbre da vida e a utilidade de situações que se apresentam arquetipicamente na vida de todos nós.

Logicamente esse assunto é pertinente às terapias como um todo. No entanto, com o uso da Hipnoterapia, esse processo é acelerado, pois a Hipnose produz a interiorização necessária - e permitida por quem a realiza - para a ampliação do conhecimento e compreensão de si mesmo em níveis não encontrados na corriqueiridade diária.

Chamar a esses processos individuais de espirituais ou psiquistas depende da abordagem que cada um atribui àquilo que acredita e ultrapassa a questão de vocábulos, já que o exercício da espiritualidade e do psiquismo promovem experiências singulares que se prestam à interpretação individual e, exatamente por isso, válidas.

Há alguns de nós que classificam o que acontece em meios religiosos, quando se falam em línguas, ou se produzem curas, como Hipnose. E é. Mas...também não é. Pois, novamente, tudo está atado à abordagem de cada um. E a abordagem de cada um deve ser respeitada, já que somos da diversidade. É a diversidade que representa a riqueza criativa e potencial - em termos físicos e mentais - de nosso mundo.

Mas, como respeitar uma abordagem se ela produz resultados tão limitados quando percebemos os resultados coletivos que estamos produzindo? Assim como a espiritualidade, o psiquismo, as religiões, cada abordagem está para ser ampliada. Logo, respeito para ser ampliado. Ampliação para continuar a ser respeitado. Mas, esse trabalho é individual. E é a essa individualidade que devemos respeito. 

Tanto a expressão espiritual/religiosa/psíquica quanto a expressão individual hipnoterápica são fenômenos produzidos por seres inventivos, místicos, de uma natureza que beira à fantasia como também à produção de elementos que sustentam uma sociedade e funcionam como ferramentas resolutivas de questões que, se não forem cuidadas, nos levam a um cenário caótico. Assim, a inventividade, o misticismo, a fantasia, devem ser sustentados e estimulados. Ainda que num contexto suavemente racionalizado. 

Trazer nossas expressões de tristeza, de alegria, de amor, como aspectos nossos é o que mais nos auxilia a equilibrar essas expressões visando um resultado harmônico desejado. Banir emoções taxando-as como doenças e nos sujeitando a procedimentos químicos que embotam nossos sentidos só nos ajudam a continuarmos precisando de nossa própria ajuda, pois não é o outro que nos cura. Somos nós. No modo como apreciamos, respeitamos e trabalhamos com nossas próprias emoções.

A espiritualidade é uma verve humana, uma emoção que carece de cuidados. E independente de onde se trabalhe essa emoção - numa igreja, centro ou consultório terápico - necessita de atenção.

Imagem: Pixabay
Imagem: Pixabay

Ao longo da jornada humana vemos as mesmas religiões ou impulsos espirituais presentes, independente de quão modernos digamos que somos. Cada era ou século registrados historicamente trazem sua representação espiritual sob as mesmas vertentes, mudando nomes, indumentárias, vocábulos. No bojo, no entanto, o observador consegue concluir que ainda cultua-se Zeus, Tupã, Zambi, Olorum, Jeová, Alá, Vishnu, entre outros, e suas hierarquias arquetípicas - surgidas como cópias psicológicas dos dramas da família humana - representantes de nossas emoções mais gritantes.

Emoções e expressões espirituais/religiosas são as bases pelas quais moldamos nossa maturidade e/ou sabedoria pessoal. E num mundo tão diverso, nada está certo. Tampouco errado. Tudo é necessidade de resultado. É a partir dessa abordagem que a Hipnoterapia lida com os diversos seres humanos que ousam procurá-la como ferramenta de tratamento, ampliação da percepção e autoconhecimento.