Hipnoterapia & Afetividade

27/02/2019


A qualidade de um relacionamento amoroso tem mais a ver com um envolvimento dinâmico na manutenção da produção desse relacionamento do que algo que ocorre através do acaso.


Já escrevi sobre essa coisa do amar se aprende amando...e esse tema retorna. Sempre retornará pelo visto, pois...o que mais nos esquenta os miolos senão o amor?

 

Por mais que falemos sobre o amor, ainda haverá mais a ser falado, pois, amor é emoção que nos amadurece, que nos ajuda a burilar nosso próprio comportamento, mesmo que tenhamos o outro como ponte de referência.

Lidamos com o tema amor desde que nascemos, passando do afeto (quase) incondicional por nossos tutores familiares aos primeiros amigos e namoradinhos; da adolescência à vida adulta; da vida adulta ao envelhecimento. 

Ao longo dessas relações nossa naturalidade para conosco mesmos vai assumindo conceitos, posicionamentos pessoais e vamos construindo visões que poderiam nos deixar constrangidos se as comparássemos com as que tínhamos em cada fase passada de nossa vida.

Não são muitos os que percebem que amor é apenas um relacionamento que nos ajuda no autoconhecimento e que, para estarmos bem com o outro, precisamos estar bem conosco mesmos (e como é complexo nos acertamos conosco mesmos!). 

E até termos esse aprendizado emocionalmente estabelecido demora um pouco de tempo, pois muitas vezes temos essa perspectiva intelectivamente compreendida, mas interiormente percebemos que não, pois...quando envolvidos num relacionamento, passamos a desejar que o outro se comporte dessa ou daquela forma a fim de sermos felizes com ele.

Muitas vezes ouvimos ou falamos que é necessário desistir do amor, utilizando várias justificativas. Entre elas, "ninguém quer um relacionamento sério", "com essa idade é difícil encontrar alguém com quem manter um relacionamento amoroso", "as pessoas são complicadas", "todo mundo quer receber, mas não quer dar-se", "amor só faz a gente sofrer, nunca mais vou amar ninguém"...e por aí vai. 

E ao longo dessa jornada pessoal, muitos de nós resolvem abrir mão do amor. E quando entendemos que somos nós também os responsáveis pela saúde do relacionamento amoroso, fazendo com que entendamos que se um relacionamento terminou também tivemos uma participação nesse rompimento, deixamos o assunto de lado e suspiramos como quem diz, "então eu tenho que aprender a amar". 


Mas...como se aprende a fazer algo senão fazendo?

É necessário continuar amando para aprender a amar.

A maioria de nós deseja um relacionamento romântico, com diálogo, bom humor, carinho, leveza, respeito e responsabilidade. E é necessário tempo e atividades propícias ao desenvolvimento de um relacionamento como esses. Um tempo que muitos de nós não estamos dispostos a investir, atividades das quais muitos de nós não queremos participar. Preferimos ir para o chamado 'finalmente' apostando na relação sexual ao invés de necessariamente no convívio regular, na ida ao mercado, no aconchego de um cinema, na visita a alguém, na partilha de momentos que já vivenciamos sozinhos, mas que podemos vivenciar com o outro. 

Fora isso, geralmente nos achamos capazes de julgar o alguém com quem podemos desenvolver um relacionamento duradouro e enriquecedor assim que o conhecemos. Vivemos cercados por nossos conceitos rigidamente definidos e os aplicamos a alguém que acabou de chegar e que nem sabe que está sendo julgado, analisado, observado, classificado, tão duramente, ainda que de modo sutil.

Se somos assim tão peremptórios com o outro, como esperar que o outro seja natural conosco? E não é da naturalidade de sermos humanos, vulneráveis e crentes que nasce o amor?


Eu disse a ele para dar a si mesmo o tempo de ficar com sua parceira somente para...'carinhar'. 

Ele ficou um pouco constrangido, mas continuei, pois o olhar dele parecia pedir mais informação. Eu disse "busca promover o momento do aconchego. Depois de chegar do trabalho, puxe-a gentilmente para o sofá. Dê beijinhos. Acarinhe os cabelos. Pergunte como foi o dia. Conte do seu. Solte-se. Dê um tico de risada. Faça cócegas sutis nela. Sonhe um pouco. Lembre-se dos dias de infância, do que você fazia. Pergunte a ela se ela gostava, do que gostava, como fazia isso ou aquilo. É assim, nessa vagarosidade que damos passos de gigantes...ou melhor, de perfeitos amantes. 

O tratamento dele continuou e, ao final do mês, ele me surpreendeu quando disse "sabe aquilo que você me falou? Aquilo de passar mais tempo, de namorar...? Então, eu comecei a fazer. Nosso relacionamento melhorou 100% por cento.". 

[Luciene Lima, Hipnoterapeuta]  

Muitos de nós dizemos, "mas, se eu não fizer isso, vou me condenar ao sofrimento". Mas, quem disse isso? Em que cartilha lemos que, ao aceitar a humanidade do outro, teremos que sofrer do modo como tememos?

Fato é que, o que temos por certo, construído em palavras, é uma tradução, muito limitada na verdade, de uma emoção de desânimo e cansaço pessoal. E é necessário aprendermos a reconhecer a natureza dessa predisposição pessoal apressada, mantida sob o véu das justificativas frágeis, a fim de aprendermos a deixar vir e ir. Pois quando aprendemos a deixar vir e ir é que ocorre a manutenção do ficar.

Saber deixar vir e ir. Eis o grande aprendizado a que o amor nos conduz. E enquanto isso acontece, construímos nossas riquezas. Aquelas que enchem o ambiente de risos, que pintam as paredes com sons, que ganham espaço em nossas agendas, que fazem com que gostemos mais de nós mesmos. 

E enquanto isso tudo ocorre, estamos amadurecendo o olhar para quem somos, os seres capazes de apreciar o outro pelo que ele é deixando-o desnudar-se conosco, permitindo que, desse modo, o amor sonhado se faça.

Ao lidar com o saber deixar vir, abrimos mão do julgamento. Ao lidar com o deixar ir, abrimos mão do medo, pois já nos conhecemos, sabendo que somos nós mesmos que estamos presentes com ou sem o outro no maior espetáculo do século, nossa própria vida.

E desse modo, o outro fica. E, sim, agora podemos nos considerar seres inteiros, sem alguém que nos garanta a felicidade que só nós mesmos temos como dar a nós

Pois se o outro chega é porque também deseja ser mais do que é na orquestração de uma felicidade que já existe por si só. Se o outro se vai, sabemos que é porque não havia como ficar. Se ficasse, estaria condenando a si e a nós a um relacionamento onde o amor em sua inteireza e maturidade não poderia ter continuidade. Nem para nós e nem para aquele que decidiu ir. E se fica é porque ainda há o que ser explorado nessa jornada conjunta. E o que desejamos de um relacionamento - além do romantismo, diálogo, bom humor, carinho, leveza, respeito e responsabilidade - que não seja a oportunidade de continuarmos explorando esses mesmos elementos?

Aprendemos a amar na lide dessas reflexões que, sem serem feitas direta e objetivamente, vão se formando enquanto permanecemos na exploração dinâmica de uma convivência onde há espaço para continuarmos nos ampliando emocionalmente e psiquicamente. 

Eis um dos motivos pelos quais sempre teremos muito a falar sobre o amor, pois ele ganha novas conceitualizações conforme nós mesmos vamos nos conceitualizando de modos mais amplos.

E essa conceitualização, ou ampliação de nossos valores a partir de nossa maturidade, está presente independente de nossa cultura acadêmica ou experiência de vida

O que nos faz diferente é basicamente reconhecermos e organizarmos em palavras aquilo que desejamos. No bojo, a despeito das experiências que nos caracterizam, queremos todos as mesmas coisas: sermos amados, queridos, termos sucesso profissional e financeiro, nos sentirmos acolhidos. 

E isso se dá também a partir dos relacionamentos amorosos que ocorrem de modo dinâmico. Logo, passividade não entra na lista de elementos que colaboram para o relacionamento desejado.

Se observarmos com carinho, todas as interações familiares e festivas nas quais nos envolvemos nunca ocorreram do nada, sem pessoas dinamicamente envolvidas no acontecimento. Até mesmo Papai Noel era alguém que se lançava na dinamicidade da compra da roupa, no planejamento de sua aparição, no esquema do horário e do como se apresentaria. 

Quem não tem tempo, nem deve querer se relacionar, afinal...do que são feitos os relacionamentos senão do tempo que dedicamos a "nos relacionar com"...ou alguém se relaciona sem ter tempo pra dar-se?

Na vida adulta é necessário, portanto, que compreendamos que da qualidade de nosso fazer depende a qualidade da realidade que temos por intenção vivenciar.

Diante da proposta de nosso envolvimento dinâmico nas relações amorosas, muitos de nós reclamamos que esse envolvimento consciente no fazer um relacionamento foge à naturalidade que todo relacionamento deveria ter. Ledo engano.

Cada relacionamento é o que é exatamente porque há um envolvimento dinâmico, ainda que não explícito. Sim, mesmo a passividade é um movimento. Infeliz. Mas...movimento.

E muito do que já sabemos sobre o amor, afinal, se pensarmos bem, já sabemos praticamente tudo, está guardado no dedicar tempo. Para "passar com", "ficar com", "fazer com", "viver com". 

Pois se não estamos "com esse", estamos "com aquele"; se não estamos "com o que amamos", "estamos com outra coisa que "amamos mais". Mesmo que não admitamos...

E nem estamos falando de casamento. Afinal, amor é que compõe o casamento. Amou, casou. Amou, tá casado. E nem de sexo estamos falando. Isso tudo é coisa que vem depois e que fica melhor quando se faz amor...amor é coisa que se faz. Ativamente. Através das bobagenzinhas essenciais das quais a vida tira a sua vitalidade .  

Assim, amar se aprende. Amando. Fazendo. Realizando. Pois mesmos os que enaltecem um amor natural precisam se envolver na fabricação dos elementos dessa naturalidade.

Fato é que não discorrem a respeito disso. Mas que fazem...ah, fazem. E se fazem, está na hora de você, eu, e todo mundo, olhar com mais seriedade para isso a fim de fazer o que é necessário de forma a ter o que dizemos que desejamos e abrirmos mão, desse modo, das justificativas. Essas sim desnecessárias.

E àqueles que já compreenderam isso, resta a doce apreciação e ampliação dessa construção, por terem o perfil adequado que justifica a vivência desse amor tão desejado pela maioria.

São essas algumas das coisas que trabalhamos em Hipnoterapia quando o caso é "desejo um amor", "meu relacionamento não está bom", "a coisa não está funcionando como deveria" e frases afins.

O segredo já está em nós. Temos apenas que permitir que ele, ativamente, se revele.