Relações abusivas

27/07/2020

Na década de 1970, eu tinha uns nove anos de idade. Eu tinha um vizinho que apanhava de sua esposa. 

Quando perguntado por outros vizinhos sobre o motivo pelo qual ele ainda permanecia naquele tipo de relação, ele dizia que tinha que ter paciência com a esposa, pois ela era doente, nervosa...

Eu não entendia muito de nada disso, mas...mesmo muito jovem e sem entender muito sobre a ordem de como deveria funcionar os relacionamentos, eu costumava pensar "se eu vivesse com uma pessoa assim, eu iria preferir ir embora.". 


Os anos se passaram e me vejo num mundo não muito diferente daquele em que vivi meus primeiros anos de infância. E percebo que falamos muito sobre relações abusivas por parte da maioria contra a minoria, de homens contra mulheres, de brancos contra negros, de jovens contra idosos, e muitos outros tipos de abusos. No entanto, somos todos humanos, sujeitos a vulnerabilidades, anseios e necessidades. Assim, pensar em abuso começa a fazer sentido quando entendemos que somos todos iguais. E, a partir disso, pensarmos soluções sobre situações difíceis para todos os envolvidos num relacionamento é condição mais que essencial para conseguirmos evitar o uso excessivo, incorreto ou ilegítimo do poder em situações que, vez ou outra, vivenciamos. 

O que é abuso?

Embora possamos entender abuso como o uso excessivo de substâncias químicas, alimentos, comportamentos, etc., o abuso também está relacionado ao comportamento humano para com outros e até para com animais. E é disso que estamos falando aqui. 

Compreendido como uma ação humana onde exista uma situação onde alguém se aproveite do fato de ter mais poder do que você para impor a própria força tanto moral quanto física, o abuso é bem mais que isso. Em termos simples, abuso significa basicamente eu esquecer que você é como eu e tratar você de modo violento, agressivo, desrespeitoso. 

E por não entender isso é que muitas pessoas se submetem a relacionamentos abusivos, arriscando muitas vezes a própria integridade e, consequentemente muitas vezes, a própria vida.  

Há abusos em situações domésticas, há abusos em ambientes de trabalho, há abusos até mesmo em ambientes públicos. E por que alguém, mesmo sabendo que vive situações de abuso ainda se submete a isso? 

Medo, falta de confiança, falta de informação, incapacidade de dar conta de si mesmo, seja por idade ou crença...as razões são várias. E até mesmo para que uma pessoa seja ajudada nisso é necessário que não abusemos de nosso poder na posição de quem supostamente entende o problema a fim de tirar a pessoa dessa situação. 


Abuso sexual, abuso infantil, abuso de idosos, abuso profissional, abuso animal...a  forma mais rapidamente compreendida como abuso se dá em torno da violência física e, apesar de cada abuso possuir suas características nomeadas e explicadas (bullying, estupros, assédios, maltratos, etc.), abuso é excesso de comportamento que priva o outro de seu direito de ser. Não importa se é caracterizado pelo uso da força física, de agressividade verbal, constrangimento vexatório ou imoral, ou até mesmo imposição de comportamentos restritivo à guisa de motivo educatório. 


Ela é decididamente aquilo que chamamos de acumuladora. Mora com o filho e o neto. Sob a mesa da sala da casa de dois cômodos em que vivem, ela guarda sapatos, roupas, brinquedos. A mesma coisa ocorre no quarto onde dormem. A família composta pelos três membros - ela, filho e neto - vivem harmoniosamente, mas já houve quem dissesse que esse ambiente não é o adequado para a criação de uma criança por conta do acúmulo. No entanto, ninguém na casa reclama do modo como vivem. Ela está fazendo tratamento para depressão. Contudo, ela não se reconhece como uma pessoa depressiva. Diz apenas que sofre de saudades, pois na altura de seus 75 anos de idade, não consegue encontrar mais motivos para continuar vivendo, sente saudade de seu marido falecido há 10 anos, e reclama que seus vizinhos abusam dela chamando-a de *&% suja lixeira* e outros nomes que ela nem gosta de repetir. 

[Luciene Lima, Hipnoterapeuta]


Muitas vezes, sob a justificativa de saber o que é melhor para o outro, nos munimos de nossa rigidez tentando contornar a naturalidade do outro impondo conceitos que só servem para nós porque fomos criados assim ou simplesmente porque nos falta criatividade para propor mudanças que respeitem o direito de o outro viver de acordo com suas condições financeiras, intelectuais e/ou emocionais e seguir seu próprio caminho vivendo de suas próprias soluções - ainda que diferentes das nossas. 

Educar não e algo fácil e implica em compaixão, benevolência, sensibilidade e respeito. Elementos que muitas vezes nos faltam. Portanto, analisar o comportamento pessoal e tomar decisões também de caráter pessoal - muitas vezes deixando de lado nossos excessos emocionais - pode nos ajudar a colocar os pingos nos 'is'. De modo sano. 

No meio desse caminho há leis das quais podemos nos valer quando se trata de denúncias sobre abusos que testemunhamos contra seres humanos e contra animais. 

Além disso, seguir nossa capacidade de observância em relação aos que nos cercam pode também nos ajudar a ajudar o outro, pois nem sempre quem é abusado interpreta o abuso como tal, seja por imaturidade por conta da idade ou condição intelectiva/mental/financeira, quanto por questões culturais. 

Em nossas próprias relações é interessante nos perguntar se estamos abusando ou impondo abusos ao outro, ainda que de modo imperceptível até então. Relacionamentos saudáveis são feitos da matéria do zelo que implica, por sua vez, nesta observação desprovida de julgamentos a fim de não misturarmos conceitos e conclusões apressadas que nos levam, consequentemente, a confusões pessoais. 

Como sociedade estamos destinados a viver em grupos afins. E é nisso que a vida se torna um jogo onde cada um possui seu papel, realizado a partir de sua própria atuação, munido de suas próprias crenças e condições. Esta atuação obedece a critérios de conveniência pessoal e primar por essa harmonia que o viver em grupo exige é necessário para o bem-estar tanto do grupo quanto do indivíduo. Fazer concessões encontrando um meio termo nestas concessões é, novamente, necessário. E é nesse momento que as opiniões dos que estão fora das situações consideradas de abuso ganham validade no quesito 'pensar relacionamentos'. 

Para além das reflexões filosóficas - existentes e válidas - buscar o meio termo nos relacionamentos, considerando cada qual envolvido, torna todo o cenário abusivo uma dança complexa onde cada um se desenvolve a partir de bases próprias. 

Optamos como primeiro caminho evitar as agressões psicológicas e físicas. E é a partir daí que vamos considerando as reflexões sobre a existência dos abusos encontrando soluções pertinentes que garantam o desenvolvimento de cada ser humano, respeitando cada parte envolvida nestas questões. 

No que tange a respeito, essa é outra questão passível de reflexão, pois, no bojo íntimo de cada um, respeito é algo pertinente a crenças pessoais e promover condições de cada um ampliar sua  noção sobre o tema requer compaixão, compreensão e aceitação

E você? Como realiza sua reflexão a respeito do abuso? Como lida com o tema e o que desenvolve a partir dele? Dê sua opinião. 😉